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EXPEDIÇÃO 5 - 8 a 10 Dezembro - Oliveira do Hospital

A EXPEDIÇÃO 5, composta pelo Grupo Pioneiro do Agrupamento 1246 de São Pedro e São João do Estoril, teve três dias intensos de trabalho em Oliveira do Hospital. Os escuteiros colaboraram com as entidades locais na triagem e organização da roupa doada e ajudaram na limpeza de um pinhal. No dia seguinte, estiveram a fazer limpezas junto a um rio, na freguesia da Bobadela, ajudando a desobstruir a linha de água. Um trabalho preventivo que veio a revelar-se fundamental nos dias seguintes, quando choveu com intensidade no local.

No terceiro dia, foram visitar um lar de pessoas com deficiência, em Galizes, onde puderam animar os utentes e sair de lá com o coração cheio.

Testemunho 1

O mote partiu dos nossos pioneiros (jovens de 14 a 18 anos), queremos ir ajudar quem precisa e mais ficou prejudicado com os incêndios deste Verão. Foi assim o ponto de partida para o que viria a ser o nosso fim de semana de 8, 9 e 10 de Dezembro. 

Partimos com esta missão, de apoio e de nos colocarmos ao serviço dos outros. Apesar de termos já algumas actividades destinadas propúnhamos-nos a fazer ainda mais do que isso. 

O primeiro grande "abanão" surge logo à saída da IC6 quando tudo o que vemos em redor são centenas ou milhares de hectares completamente queimados, o silêncio tomou conta da carrinha em que viajávamos, todos absorvíamos o primeiro impacto como conseguíamos. É muito dura esta observação, pois uma coisa é vermos à distância de um comando de televisão outro é observarmos in loco o resultado daquele flagelo do Verão. 

Chegados a Oliveira do Hospital, somos recebidos com alegria na corporação de Bombeiros e pelo funcionário da Junta que nos fizeram não só sentir em casa, mas essencialmente nos fizeram sentir como se fossemos da terra.

Apartir daqui o trabalho desenvolveu-se de diferentes formas, arrumações no enorme armazém improvisado, onde a roupa chega e é separada. O primeiro contacto com quem perdeu tudo, é duro, principalmente porque vemos em cada olhar o desalento de quem tudo perdeu. 

Este desalento é contraposto com alguma esperança e carinho que tentamos colocar em cada palavra que trocamos. Sentimos que as maiores forças que trazemos são a palavra e a escuta. 

Realizamos ainda acções diferentes como, auxílio na execução do presépio de Gramaços, limpeza de margens de um ribeiro na bonita aldeia de Bobadela, onde o património cultural é muito rico, e ainda animação de um lar em Galizes. 

Todas estas acções são acompanhadas sempre por pessoas que nos fizeram sentir um deles, temos muito este espírito no escutimo, somos irmãos de todos os outros escuteiros, sendo que foi desta forma que nos fizeram sentir todos com quem lidamos. Sempre com uma preocupação com o nosso bem-estar que apenas e só porque não nos esquecemos tudo o que eles passaram e tentamos ser tudo aquilo que eles precisaram que nós fossemos.

Testemunho 2

Dia 8 de Dezembro de 2017 acordei cedo. Não para ir para a escola como é de se esperar a uma sexta feira, mas para ir buscar a Laura Alpizar a casa e juntarmo-nos à restante Comunidade. A hora de encontro estava marcada para as 7 da manhã junto à sede de Agrupamento. Malas, mochilas, varas e comida foram postas dentro das carrinhas previamente alugadas pelos chefes à medida que todos iam chegando. Foram dados os conselhos de última hora pelos pais, avós, familiares, conhecidos que nos deixaram no local e que assim se despediam. À semelhança de quase todos, a única coisa que conseguia sentir quando entrei na carrinha era sono! E um certo conforto causado por estar rodeada pelos meus amigos. A viagem foi longa, por isso, dormi.

Depois de umas horas de descanso acordei com uma paisagem destruída e assustadoramente triste, de lugares que já tinham sido muito e agora se perderam nas cinzas, (nada disto nos ficou indiferente). Já em Oliveira do Hospital fomos recebidos pelos bombeiros locais e surpreendidos com um enorme monte de colchões que podemos usufruir durante a nossa estadia. Nesse mesmo dia, almoçamos junto à Igreja, à volta de uma árvore, com a companhia de dois seres de 4 patas, uma pequena demonstração de uma dança reveladora, e depois ainda jogamos uns quantos jogos em comunidade para não se desperdiçar tempo!

Após este pequeno convívio fomos divididos em dois grupos. O primeiro que foi deslocado até uma espécie de quinta, onde ficaram a organizar madeira durante todo o dia. Foram recompensados com uma visita a umas ovelhas, que estavam a ser ordenhadas, e com um lanche de picapau e frango. Enquanto os restantes davam uma volta pela Terra à espera que armazém onde iriam trabalhar abrisse as suas portas. E aqui se deu pelo menos para mim, que fazia parte deste grupo, o propósito de uma deslocação de aproximadamente quatro horas de viagem. Iríamos agora ajudar estas pessoas a organizar um espaço para que as famílias afectadas pelos incêndios pudessem ganhar alguma dignidade e sentido de vida. Entre os que foram para o armazém, ainda nos subdividimos em 2 grupos. Um grupo que ficou no armazém e que ficou por organizar por categorias todo o tipo de coisas como roupa interior, brinquedos, calçado etc... Enquanto os outros, incluindo eu, descartavamos todo o tipo de bens provenientes de um outro armazém, uma espécie de terminal de serviço encerrada pelo tempo, onde os donativos eram imensos mas que precisavam de ser organizados.

Durante esta tarde pude assistir a uma mãe e filha que foram ao local à procura de pijamas para a menina, que teria à volta de 7 anos. No entanto, aquele dia estava apenas destinado a arrumações e organização do espaço, e a senhora, que era notório passar dificuldades, retirou-se tristemente com a filha a chorar porque queria um brinquedo. Um dos chefes no local não ficou indiferente e acabou por ceder ao “capricho” da pequena menina que ao sair dali levava não só um brinquedo como um sorriso enorme na cara. Fez-me pensar o quão materialista por vezes posso ser, por me queixar por não ter umas botas pretas, enquanto pessoas como aquela rapariga não têm nada. Perderam tudo.

Em agradecimento ao nosso trabalho e dedicação nessa noite levaram-nos a jantar fora e a uma inesperada grande noite de fados, onde pudemos assistir a uma representação fantástica e cantar. Foi uma refeição reconfortante que deu para esquecer o desgaste físico e psicológico que tínhamos tido. No entanto diria que este foi o dia menos cansativo dos três.

No dia seguinte, dia 9, fomos ajudar na limpeza de um ribeiro que continha cinzas e era notória a contaminação. Não posso dizer o que passou pela cabeça do resto dos Pioneiros, mas na minha veio- me um pensamento assustador de algo irrecuperável. Não sabia como poderia ajudar. O que poderia fazer para que isto não acontecesse noutros locais, só desejava que não voltássemos a chegar àquele ponto. Era algo que me ultrapassa. De certo que este sentimento foi acalmado à medida que conseguimos cortar aquelas enormes silvas, urtigas, canas e cinzas do ribeiro.

Foi recompensador ver o antes e o depois. No entanto, pelo menos para mim não foi suficiente. Mas sei que demos o nosso melhor. O almoço desse dia também nos foi oferecido e ainda visitamos o museu da Bobadela. Foi divertido! Nesse dia tomamos banho no quartel, fizemos amizade com uma das bombeiras que já conhecia o quartel desde os 2 anos. Jantamos noodles, como manda a moda, e depois de lavarmos a loiça preparamos os últimos pormenores para o fogo conselho.

Para mim foi um dos melhores, desde uma "fogueira" muito original - iogurtes e bolachas – e tivemos um momento de reflexão que acho que fazia falta a todos. Serviu para nos conhecermos melhor e nos unirmos mais, percebermos as nossas parecenças, reconhecermos que todos erramos, e que cada decisão que tomamos pode influenciar um mundo.

Por fim, a última manhã. Após a missa, foi-nos mostrada a Capela dos Ferreiros, estilo Romântico, início do Renascimento. Chovia bastante lá fora, mas partimos na mesma diretos a um lar de um uma aldeia próxima. É-me impossível descrever tudo aquilo que pensei e senti durante aquelas horas. Desde alegria, agradecimento por poder estar ali a ajudar e não a ser ajudada, a ser capaz, a desespero total pela minha insignificância, e pela dor que sei que muitos de nós sentiram.

Orgulhei-me sem dúvida de muita gente ter enfrentado estas realidades, que tanto lhes dizem, dizem a todos, uns avós, outros irmãos (que é o meu caso), entre muitas outras possíveis situações. Inicialmente fiquei paralisada, não sabia o que fazer. Mas acho que só o facto de ter estado lá, de poder ter conhecido o Sr. Carvalho, que não falava mas tinha uma alegria e um sorriso imenso; O Sr. Zé que era paraplégico e que viu o fogo próximo daquela sua segunda casa. De poder ver os meus amigos e “irmãos” a alegrarem pessoas como o Sr.Manel. Foi sem dúvida exaustivo. Acho que o que me fez mais impressão foi o facto de saber que não queria ficar ali mas, ao mesmo tempo, sentir que devia alguma coisa áquelas pessoas, foi difícil despedir-me delas. E sei que não foi só a mim.
Obrigada chefes por esta oportunidade, pelo empenho, e por se orgulharem, é igualmente importante para mim tudo isso.